
Duo Viola & Cravo
O Duo Viola & Cravo foi concebido em 2008, fruto da parceria musical entre Ricardo Matsuda (violas brasileiras) e Patricia Gatti (cravo). Os músicos iniciaram sua colaboração ainda como integrantes do Grupo Anima.
O álbum de estreia do Duo, "Contos Instrumentais" (2009), apresentou ao público a combinação de instrumentos com origens socioculturais e históricas distintas: a viola caipira, ligada às modas, danças e folias, e o cravo, de tradição barroca europeia. As composições de Ricardo Matsuda organizam-se em quatro suítes temáticas — Infância, Interior, Mundano e Metrópole — e dedicam-se a personagens da cultura popular brasileira e universal.
A obra, lançada em CD, foi bem recebida pelo público e pela crítica. Irineu Franco Perpétuo, da Folha de S.Paulo, observou a beleza da fusão musical: “Viola caipira e cravo estão longe de constituir a mais óbvia das combinações. Contudo, por serem ambos instrumentos de cordas pinçadas, seus timbres se mesclam lindamente, como mostra esse álbum de composições próprias de Ricardo Matsuda, que dedilha viola caipira, viola de cabaça e violão, ao lado do cravo de modelo francês de Patricia Gatti. As obras fundem de maneira surpreendentemente espontânea a tradição oral brasileira, o contraponto barroco e o instrumental contemporâneo”.
O álbum foi ainda escolhido pelo jornal Correio Popular/Campinas como o melhor lançamento nacional de música instrumental brasileira/jazz de 2009. Em 2010, o Duo Viola & Cravo recebeu reconhecimento no Festival Nacional Voa Viola (Brasília/DF) entre as contribuições contemporâneas envolvendo a viola brasileira e, em 2018, integrou a coletânea Viola Paulista Vol. I (Selo SESC, com curadoria de Ivan Vilela).
O segundo álbum, “O Cravo e a Rosa”, é fruto de projeto selecionado e produzido através de recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural) do Estado de São Paulos, com lançamento em 2016. O repertório inclui arranjos originais, escritos por Tiago Costa, Ivan Vilela, Albano Sales e Ricardo Matsuda, para obras de importantes compositores brasileiros: Dorival Caymmi, Tom Jobim, Milton Nascimento, Tavinho Moura, Edu Lobo/Chico Buarque, Baden Powell/Vinícius de Moraes, Hermeto Pascoal e Guinga/Paulo Cesar Pinheiro. O álbum também apresenta um prelúdio de J. S. Bach (Partita n° 3) adaptado para viola solo, um arranjo para peça de anônimo catalão do século quatorze (“Stella Splendens in Monte”) e uma versão original para a canção da tradição oral brasileira “O cravo brigou com a rosa”.
Desde então, o Duo Viola & Cravo tem realizado uma série de shows e circulações pelo território nacional. Estas atividades são frequentemente viabilizadas por meio de prêmios e editais de fomento à cultura, além de parcerias com instituições relevantes para a difusão da arte, como o Sesc no Estado de São Paulo.

A VIOLA

A viola, este instrumento de cordas dedilhadas de inestimável valor cultural, carrega uma linhagem que remonta há aproximadamente 800 anos. Sua origem é rastreada até o alaúde árabe (oud), evoluindo para a guitarra latina e, posteriormente, ramificando-se nas diversas violas de mão que floresceram em Portugal.
A jornada transcontinental
Em Portugal, o instrumento se regionalizou, dando vida a variações como as violas Braguesa, Amarantina, Toeira, Beiroa e Campaniça. Sua chegada ao Brasil ocorreu durante o período colonial, trazida por padres jesuítas e por colonos e famílias portuguesas a partir do século dezesseis.
Por três séculos, a viola se estabeleceu como o principal instrumento de acompanhamento no país, integrada ao povo, suas danças e celebrações. Enquanto se adaptava e criava raízes, ela se concentrou e se tornou o coração musical em regiões interioranas, moldando o som do Brasil profundo.
As Violas Brasileiras
Enquanto a viola em Portugal se manteve mais ligada às celebrações tradicionalistas, no Brasil ela explodiu em diversidade, interagindo com a rica e dinâmica formação da cultura popular e seu saber de transmissão oral.
Essa adaptação criativa resulta em exuberante musicalidade, e se apresenta numa variedade de instrumentos com formatos e afinações diversos, em construções que incorporam materiais específicos, integrados aos seus contextos socioculturais e ambientais.
O termo “violas brasileiras” define um conjunto notável de instrumentos, cada um adaptado e usado em contextos regionais específicos. Este leque inclui a Viola Repentista (Nordeste), a Viola de Cocho (Mato Grosso), a Viola de Buriti (Tocantins), a Viola Caiçara (Litoral Sul de SP/Norte do PR), a Viola Machete (Recôncavo Baiano) e a Viola Queluz (Minas Gerais), sem esquecer da inconfundível Viola de Cabaça.
A Viola Caipira
Também conhecida como viola de dez cordas ou viola de arame – é a variedade mais celebrada e notada no Brasil. Sua configuração: dez cordas metálicas agrupadas em cinco pares, possibilitando uma vasta gama de afinações. Há ainda variações com doze cordas, também agrupadas em cinco ordens.
Com cerca de 25 afinações catalogadas, as mais difundidas são o Cebolão (em Ré Maior ou Mi Maior) e o Rio Abaixo (em Sol Maior). Este instrumento é um pilar da cultura popular, essencial nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Espírito Santo.
Ela não apenas define a sonoridade das duplas sertanejas, tanto clássicas quanto das novas gerações, mas também transcendeu o universo rural, sendo abraçada pela MPB e pela música instrumental.
Mais recentemente, a viola tem conquistado o merecido reconhecimento acadêmico, com a criação de cursos em universidades e conservatórios. Sua versatilidade continua a se expandir, encontrando seu lugar em novos gêneros musicais como a música de concerto, o rock, o jazz e a chamada música instrumental brasileira, provando que suas raízes profundas podem gerar frutos na vanguarda musical.
o cravo

Símbolo musical do período Barroco, o cravo é considerado um importante e versátil instrumento de teclado desde o final do século dezesseis até o início do século dezenove. Trata-se de um instrumento de teclado, cujo surgimento é difícil de precisar exatamente, havendo documentos com descrições em vários países europeus a partir do final do século quatorze. Anterior ao piano, seu mecanismo peculiar, que “belisca” uma corda mediante um plectro (semelhante às palhetas dos guitarristas) proporciona uma sonoridade delicada e brilhante, surpreendente aos ouvidos contemporâneos.
Com o advento de novos movimentos artísticos e culturais após o Barroco no cenário europeu e brasileiro, o cravo caiu em desuso em meados do século dezenove sendo resgatado no século vinte pelo movimento de musicologia histórica – que trouxe de volta o cravo às salas de concerto, abrindo campo tanto para a restauração de cravos antigos, quanto para a produção de novos exemplares a partir de cópias de instrumentos já existentes.
Ao mergulhar na musicalidade do período Barroco tanto na Europa, quanto no Brasil, é comum se conectar com o som dos acordes produzidos pelo cravo, um instrumento de tecla e corda pinçada – um parente nem tão distante assim dos pianos e teclados populares na atualidade. Instrumento considerado a grande referência musical do período citado, o cravo ganhou notoriedade e reconhecimento nesta época, mas é, na verdade, bem mais antigo do que isso.
Sua criação provavelmente se deu na Itália, com primeiras referências que datam do século quinze, quando inicialmente foi chamado de clavicembalum.
É da interação das cordas, madeira e ar que se produzem as vibrações características que o ouvido humano reconhece como timbre do cravo.
Ele é considerado o mais importante e versátil instrumento de teclado desde o final do século dezesseis até o início do século dezenove, depois do órgão, e possivelmente surge como conjunção de três elementos: o saltério, o teclado e o martinete-saltador (ou Jack). Sua particularidade maior vem do seu som produzido através de plectros que pinçam – ou beliscam – suas cordas. A estrutura e configuração dos cravos pode variar muito de acordo com sua origem. Os países com forte tradição cravística são Itália, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e França.

No Brasil, há relatos da presença do cravo no século dezesseis, e em anos posteriores especialmente no meio musical carioca, onde foi tocado tanto por instrumentistas profissionais, quanto amadores. Em alguns locais, inclusive, eles chegavam a ser escutados ao lado do som das violas – que haviam recém-chegado ao Brasil no mesmo período.
Apesar dos registros precedentes, foi somente no século dezoito que o cravo teve seu protagonismo reconhecido no Brasil, durante o período Barroco – importância esta tão grande que ele é, até hoje, associado à cultura deste movimento.
Após sua marcante presença na musicalidade barroca, o cravo caiu em desuso no século dezenove com o advento de novos movimentos artísticos e culturais no cenário europeu e brasileiro, nos quais o piano surge como instrumento de teclas predileto.
Junto com outros instrumentos antigos o movimento de musicologia histórica, no século vinte, trouxe de volta o cravo às salas de concerto, abrindo campo tanto para a restauração de cravos antigos, quanto para a produção de novos exemplares a partir de cópias de instrumentos já existentes.

Para além desse movimento de música historicamente informada, na década de 1960 o cravo ganhou vida própria incorporado à música popular, com ampla disponibilização de gravações, num período de contato entre diversificadas expressões artísticas, experimentações e instrumentos – aliadas aos meios de comunicação de massa.
Uma das principais manifestações musicais foi o rock, trazendo em seus arranjos musicais evidências marcantes da presença do cravo. Uma das primeiras aparições do cravo no estilo rock americano ocorreu em 1964 com a banda The Beach Boys, liderada por Brian Wilson (1942-2025), reconhecido músico que trouxe inovação tanto musicalmente quanto tecnicamente em relação aos padrões de gravação da época. A banda inglesa The Beatles trouxe exemplos emblemáticos com a presença do cravo. No Brasil o movimento “Jovem Guarda”, movido por tais influências culturais internacionais nesse período, desponta no país com uma geração de jovens cantores-compositores, principalmente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, particularmente inspirados pelo grupo The Beatles. Possuía semelhanças com as bandas de rock internacionais pautando-se principalmente em versões em português para sucessos ingleses e norte-americanos popularizados no Brasil trazendo o som do cravo nesse contexto.
O cravo trafegou do erudito ao popular e encontra na sua história diferentes tendências musicais.
o músicos

ricardo matsuda
Ricardo Matsuda é um músico multifacetado, com atuação como violonista, violeiro, contrabaixista, arranjador e compositor, concentrando seu trabalho na música popular e instrumental brasileira.
Sua trajetória inclui a Direção Musical de projetos variados, como o longa-metragem “Um caso do outro mundo” (de Henrique Sattin, 2022), o audiovisual “Música Caipira” (de José Hamilton Ribeiro, 2015) e os álbuns “Cordal” (de Almir Côrtes e João Paulo Amaral, 2014) e “Para Dançar a Vida” (Juliana Caymmi, 2010). Dirigiu, ainda, seu álbum autoral, “Dança das Estações” (2001), e os CDs “Paisagens”, de Ivan Vilela, e “Arirê”, do grupo vocal homônimo, estes últimos indicados ao Prêmio Sharp de Música em 1998.
Como intérprete, arranjador e compositor, integrou o Grupo Anima (2001 a 2008), com o qual realizou turnês nacionais e internacionais por diversos países da América do Sul, México, Estados Unidos e Canadá. O grupo foi finalista do Prêmio Carlos Gomes (2003), tendo vencido a premiação em 2000.
Matsuda também assinou arranjos para a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, parte deles apresentados em programas de concertos nos Estados Unidos e no Japão. Sua composição “Forrobodó” e arranjos para temas populares foram gravados pela mesma Orquestra no CD “Campinas de Todos os Sons” (2004), junto a obras de Carlos Gomes e José Eduardo Gramani.
Sua trajetória inclui participações pontuais com créditos variados em produções musicais com Ivan Vilela, Juliana Caymmi, Mané Silveira, Paulo Jobim, Toninho Ferragutti, Guinga, Jaques Morelembaum, Fátima Guedes, Zé Renato e Ná Ozzetti, entre outros.
Atualmente, Ricardo Matsuda atua no Duo Viola & Cravo, no grupo Lasmanos – voltado à canção latino-americana – e ao lado da cantora Izabel Padovani. O músico também se dedica à educação como professor de violão no projeto sociocultural Oficinas de Música Caipira em Campinas/SP.
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Patricia Gatti é pós-graduada em cravo, com doutorado em música pela Unicamp, e uma das cravistas responsáveis pela inserção e atualização do cravo na música brasileira popular.
Atua desde 2009 junto ao músico e compositor Ricardo Matsuda, no Duo Viola & Cravo com 2 CDs gravados: “Contos Instrumentais” e “O Cravo e a Rosa”, junto do qual vem realizando inúmeros concertos no Brasil e oficinas pelo interior do Estado de São Paulo.
Na busca por novas sonoridades vem atuando paralelamente em formações de grupos de choro, em parceria de rabeca e percussão, além do interesse e a participação na área de interpretação historicamente orientada. Fez parte do Duo e Trio Bem Temperado ao lado do compositor/intérprete José Eduardo Gramani e da cantora Ana Maria Salvagni, tendo participado no CD Trilhas e gravado o CD “Mexericos da Rabeca”, em 1997. Em projeto de circulação pelo Estado de São Paulo no espetáculo de dança “Vícios e Virtudes”, em 2011, atuou como cravista em diálogo com a música eletrônica ao lado do compositor eletroacústico Gust.a.
Participou como cravista do Grupo Anima, desde a sua fundação até 2008, com 6 álbuns gravados, o qual conquistou os prêmios: Movimento/1997 (Melhor CD Instrumental); APCA/1998 (Grupo de Música de Câmara) e Prêmio Carlos Gomes/2000 (Melhor Grupo de Música de Câmara). Ainda como cravista do Grupo Anima realizou inúmeras turnês internacionais, participando de espetáculos nos EUA, Canadá, México, Colômbia, Bolívia, Argentina, Paraguai e Uruguai, e por inúmeros festivais, séries de concertos e projetos de circulação de música por todo o Brasil.
Na TV Cultura, participou do Programa “Mosaicos” em homenagem ao músico Elomar F. de Melo. Como cravista de música barroca participou junto a diversas formações camerísticas, orquestras, no grupo Harmonia Universalis e no Duetto de cravo a quatro mãos. Paralelamente, desde 2018 atua como prof.ª colaboradora no atendimento em arteterapia do Departamento de Psiquiatria da FCM (Faculdade de Ciências Médicas) da Unicamp.

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