
(POR QUE OUVIR: Lirismo, espontaneidade e refinamento fazem desse álbum uma surpresa das mais gratas. Avaliação: ótimo. Irineu Franco Perpétuo, Folha de S.Paulo. 07/04/2010)
“Viola caipira e cravo estão longe de constituir a mais óbvia das combinações. Contudo, por serem ambos instrumentos de cordas pinçadas, seus timbres se mesclam lindamente, como mostra esse álbum de composições próprias de Ricardo Matsuda, que dedilha viola caipira, viola de cabaça e violão, ao lado do cravo de modelo francês de Patricia Gatti. As obras fundem de maneira surpreendentemente espontânea a tradição oral brasileira, o contraponto barroco e o instrumental contemporâneo”.
(RANKING: Caderno C elege os destaques do ano na música brasileira. Bruno Ribeiro, Correio Popular. 2009)
Um ano excelente para a música brasileira. Assim foi 2009, marcado pelo lançamento de muitos discos de qualidade, tanto das grandes gravadoras quanto dos selos independentes. Foi também o ano dos novos compositores, que começaram a ser valorizados e gravados pelos grandes intérpretes da MPB, como Edu Krieger, por exemplo. Neste ano, a cena musical nativa viu surgir artistas promissores em todos os gêneros e estilos. Registrou- se, por exemplo, o “nascimento” de excelentes cantoras que vieram para ficar, como Aline Calixto (mineira criada nas rodas do Rio de Janeiro), Verônica Ferriani (revelada nas gafieiras de São Paulo) e Mariana Aydar (com seu universo singular girando entre o indie e o samba). Já as cantoras consagradas não reeditaram seus melhores momentos e realizaram discos apenas razoáveis — a exceção foi Maria Bethânia. (...)
(...) Na música regional, voltada para as raízes sertanejas e pantaneiras, a viola caipira de Levi Ramiro falou mais alto no belíssimo Trilha dos Coroados, que narra musicalmente a saga dos índios caingangue, dizimados durante a construção da estrada de ferro que liga o interior de São Paulo a Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. No universo instrumental, incluindo o choro e o jazz brasileiro, a dupla campineira formada por Ricardo Matsuda e Patricia Gatti uniu a viola ao cravo e obteve um resultado surpreendente.
Repetindo o que fez em 2007 e 2008, o Caderno C escolheu os melhores discos do ano em suas respectivas categorias. O crítico levou em consideração apenas e tão somente discos de música popular brasileira enviados pelas gravadoras no período compreendido entre janeiro e dezembro de 2009. No total foram ouvidos 111 álbuns. Não entraram na disputa CDs de música erudita, eletrônica e gêneros de origem estrangeira, como rock, country, reggae, blues e soul. Coletâneas, relançamentos e trilhas sonoras também foram descartados.
Os critérios utilizados na avaliação das obras levaram em conta aspectos como: qualidade técnica da produção; repertório; arranjos; interpretação; projeto gráfico. Analisou-se ainda a originalidade do trabalho e sua relevância para a discografia do artista. A quantidade de cópias vendidas ou a exposição na mídia não interferiram no julgamento das obras. Apesar da lista obedecer a critérios técnicos, o gosto pessoal do crítico pautou e influenciou a seleção.
MELHOR DISCO DE MÚSICA INSTRUMENTAL/CHORO/JAZZ BRASILEIRO
1º - Contos Instrumentais (Kalamata) - Ricardo Matsuda e Patricia Gatti
2º - AfroBossaNova (Biscoito Fino) - Paulo Moura e Armandinho
3º - O Papagaio do Moleque (Biscoito Fino) - Rabo de Lagartixa

(Cravo e viola curtem o "conforto da amizade". João Marcos Coelho)
E se não existisse o piano? Como soariam os instrumentos de teclado? Para imaginar isso, precisamos fazer uma regressão histórica de três séculos. Vamos recuar até o momento do parto do piano. Um instante genial, em que o fabricante de instrumentos italiano Bartolomeo Cristofori acabou de fazer com suas próprias mãos um instrumento de teclado que chamou de ‘fortepiano per suonare col forte e col piano”, como ele mesmo disse.
Isso aconteceu em 1709. Até então, os instrumentos de teclado como o cravo geravam o som num delicado sistema de pinças que beliscavam as cordas. A sonoridade era bem parecida com a de um alaúde. E o alaúde, fiquem sabendo, foi o tataravô do violão, do cavaquinho... e da viola. Sim, da nossa viola caipira de dez cordas.
Pois é. Existem mais semelhanças entre a nossa brasileiríssima viola das paisagens rurais e o cravo, instrumento-rei das cortes europeias até o início do século 18. O violeiro Ricardo Matsuda, nascido em Marília, no interior do Estado de São Paulo, aprendeu o instrumento na cidade natal. E combinou o gosto pelas raízes com o refinamento do estudo clássico. Teve aulas com mestres brasileiros e japoneses, praticando nas últimas décadas um delicado, porém delicioso, equilíbrio entre as linguagens erudita e popular.
Pois Matsuda e sua viola caipira de dez cordas (construída pelo lutiê Levi Ramiro em 2001) juntam-se ao cravo construído por Abel Vargas em 1993 que é uma réplica do cravo feito em Paris por Pascal Taskin (1723-1793). Quem pilota este instrumento de sutis pinças é Patrícia Gatti. Patrícia e Ricardo participaram do excelente grupo Anima de José Eduardo Gramani. Este último foi um grande músico: ligou as pontas do passado musical remoto, ao utilizar instrumentos antigos, com as grandes tradições musicais brasileiras. Assim, o cravo convivia com rabecas, por exemplo, no Anima. E a Idade Média revivia nas pesquisas híbridas de seu grupo.
O duo Matsuda-Gatti lançou há pouco um precioso CD, pelo selo Kalamata, intitulado Contos Instrumentais. É um dos mais fascinantes produtos desta saudabilíssima filosofia híbrida, ou eclética – chamem como quiserem -, que pratica a inclusão musical. Ou seja, abandona os malditos adjetivos e cerquinhas que costumam postiçamente separar as músicas eruditas das populares.
Ao todo, são doze composições de Matsuda, acalentadas pela oportunidade, como ele mesmo escreve no folheto do CD, “de investigarmos novas possibilidades para estes dois instrumentos tão distintos quanto tradicionais e de avançarmos, mais emocionados do que atentos, por trilhas ainda desconhecidas, no conforto da amizade”.
Quatro são os eixos em torno dos quais esta música admirável flui: Infância, Interior, Mundano e Metrópole. Proponho um itinerário diferente da disposição das faixas no CD. Comece ouvindo “Maxixe pra Chiquinha” (no caso, a Chiquinha Gonzaga, artista mulher pioneira no Brasil da virada dos séculos 19/20) e perceba como o malemolente maxixe do início acaba se transformando num contraponto bachiano cerrado – e em seguida, imagine, Bach mistura-se com o maxixe. Sempre, porém, com o máximo respeito, engenho e arte, claro.
Volte para a primeira faixa, “A fada e o saci”. Observe como uma introdução lenta típica do século 18 francês (referência aos balés de Lully para o Rei Luís XIV, o “Rei-Sol”, lembra-se?) abre espaço para uma melodia de contornos tipicamente caipiras. O cravo, que tradicionalmente não é utilizado para acordes secos, mas preferencialmente para acordes arpejados, aqui enfrenta de peito aberto rítmicos acordes cheios. E depois? Depois, ora, é só deixar rolar o CD e encantar-se com gemas como “Prelúdio para a donzela guerreira” ou
“Aleijadinho” (sim, é o famoso Aleijadinho, nosso gênio mineiro do século 18, em outro salto histórico surpreendente mas muito bem-vindo).
A essência da música autenticamente caipira brasileira é o diálogo. Pois cravo e viola conversam confortavelmente, como se fossem dois violeiros sentados na varanda de casa. Assuntam a paisagem, param pra fumar um cigarrinho de palha de vez em quando, curtem o fim de tarde e o pôr-do-sol. Só que eles trazem, a tiracolo, para esta insólita ‘happy hour’, figuras desencontradas no tempo como Bach, Lully, Nazaré, Chiquinha Gonzaga – e quem mais se habilitar (ou abancar).
ATENÇÃO: Vida Boa adverte: este CD é recomendado especialmente para os que querem desenferrujar os ouvidos, destruir rótulos em torno da música – e fazer da audição uma viagem de prazer sem fronteiras.
Artigo de João Marcos Coelho, jornalista. Estudou piano dos 6 aos 17 anos, mas percebeu que a música de invenção seria seu sustento e prazer por toda a vida aos 10 anos, quando assistiu a uma apresentação de um quarteto de cordas amador na periferia de São Paulo. Formou-se no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Ainda estudante, tocou em grupos de câmara e também num trio de bossa nova. Começou no jornalismo aos 18 anos, e na reportagem e crítica musical em 1976, na Folha de São Paulo, onde permaneceu por dez anos. Entre as décadas de 70 e 90, fez crítica musical nas revistas Visão, Veja e IstoÉ, e no jornal O Estado de São Paulo. De 1998 para cá, é crítico musical de O Estado de São Paulo, no tablóide de fim-de-semana do jornal Valor Econômico; e colunista da revista Concerto, nas edições impressa e web. Produz e apresenta, desde 2004, o programa “O Que Há de Novo” na Rádio Cultura FM, aos sábados, das 18 às 19 horas; e há um ano o programa “Concertos CPFL Ao Vivo - Música Contemporânea”, aos domingos, às 20 horas, na Cultura FM. Coordena, há cinco anos, o módulo de música contemporânea do Espaço Cultural CPFL, em Campinas. Em 2008, lançou pela Editora Algol o livro No calor da hora – música e cultura nos anos de chumbo, finalista do Prêmio Jabuti de 2009.
